Mondovino o filme
Indicado à Palma de Ouro 2004 e dirigido pelo americano Jonathan Nossiter, “Mondovino” visita vários vinhedos em sete países da América e Europa com a finalidade de confrontar os defensores da globalização e os produtores de vinho mais ortodoxos.
Ainda que o espectador não saiba a diferença entre um Malbec e um Pinot Griogio, o documentário de Nossiter promove uma análise interessante sobre o impacto da globalização na indústria do vinho. Filmado com uma câmera digital, o diretor fala com cultivadores, degustadores, consultores, importadores e críticos, e aborda a maneira como as grandes empresas americanas estão influenciando os produtores independentes europeus, comprando seus vinhedos e impondo seus métodos de produção. O resultado? Vinhos cada vez mais homogeneizados.
Os entrevistados de “Mondovino” incluem Robert Mondavi, patriarca do Napa Valley e dono de muitos vinhedos na Califórnia; Aimé Guibert, fundador e criador de Daumas Gassac, duro oponente aos planos de globalização de Mondavi. Também aparecem o crítico de vinhos Robert Parker, que expressa incômodo pelas influências que possa produzir sobre os leitores, ao mesmo tempo em que se recusa a deixar de escrever sobre seus vinhos preferidos; e Michel Rolland, consultor de dezenas de vinhedos em todo o mundo, mostrando como fazer vinhos a seu gosto, entre outras fascinantes personalidades relacionadas de alguma maneira com a indústria vinícola.
“Apesar de sua câmera movimentada, “Mondovino” é um filme fascinante não porque seja óbvia a indignação do diretor mas sim porque logra apresentar seus argumentos de uma maneira desapaixonada e deixa que os fatos falem por si mesmos. Chega-se a um ponto em que nós aprendemos tudo que há para ser aprendido sobre o vinho moderno, e o documentário continua outros trinta minutos, pois Nossiter está se divertindo muito. Ainda que os vinhos modernos talvez tenham perdido sua magia, a viagem de um vinhedo a outro não deixa de ser feita, e justo quando se pensa que Nossiter vai terminar o filme, ele vai para um vinhedo na Argentina”, diz Roger Ebert, crítico do Chicago Sun Times.
Mondovino já foi acusado de ser uma espécie de Sideways filmado por Michael Moore. Ou seja um documentário politico, de esquerda, manipulador, servindo-se do mundo do vinho como pretexto para atacar a globalização.
É verdade que Jonathan Nossiter tem uma opinião política, militante digamos, sobre este mundo: que os grandes produtores (representados pela poderosa familia americana Mondavi), ajudados por alguns enólogos ’superstars’ (representados por Michel Rolland, o mais famoso da actualidade) e críticos de vinhos interesseiros (representados pelo influentissimo Robert Parker) estão a impor um ‘gosto’ aos consumidores, normalizando-o, condenando assim os pequenos produtores, os que ainda produzem vinhos com especificidades próprias.
É também verdade que Nossiter tem algumas das virtudes de Michael Moore: o sentido de humor (pré- Fahrenheit 9/11) e a capacidade de caracterizar as pessoas deixando-as simplesmente falar. Mas tudo o resto é diferente, é outro mundo. Desde logo a maneira de filmar, com enquadramentos muito originais e a câmara sempre irrequieta, a montagem muito trabalhada e conseguida, que afastam totalmente Mondovino do género documentário televisivo. Ou seja, Nossiter é mais cineasta. Mas, a diferença definitiva é o fascínio de Nossiter pelas pessoas que filma (mesmo por aquelas de que não gosta).
Michael Moore serve-se das pessoas para demonstrar uma tese; Nossiter deslumbra-se com as pessoas e até nos faz esquecer que nos está a ser enfiada uma tese.
Embora seja um profundo conhecedor de vinho - foi escanção, por exemplo - e se note a sua paixão por ele, a sua matéria de eleição aqui são as pessoas que encontrou neste mundo, todas elas personagens bigger than life, desde o aristocrata francês Herbert de Montille e a sua orgulhosa e intransigente filha à poderosa familia americana Mondavi (e repare-se que dos pequenos aos grandes produtores os negócios estão sempre na mão de famílias).
Em entrevista ao Público o realizador disse algo muito interessante:
“Quando visitei a propriedade da família de Montille senti-me como num filme de Marcel Carné ou Jean Renoir. Quando filmei Michel Rolland, achei-me no mundo Hollywoodiano dos anos 80. Já com Battista Columbu na Sardenha tive a impressão de estar dentro de um filme de Rossellini ou de Sicca”.
E nós poderiamos continuar:
quando visita as famílias dos produtores aristocráticos italianos Frescobaldi e Antinori lembramo-nos inevitavelmente do Leopardo de Visconti, os aristocratas a passarem o testemunho à ‘burguesia’, ou seja, à familia Americana Mondavi, que aliás nos faz lembrar…os Corleoni!
É claro que só podemos dizer bem de um filme que nos dá uma galeria de retratos como esta, e até desculpamos a Nossiter algum maniqueísmo, traduzido no facto de não resistir a ridicularizar desnecessariamente os ‘poderosos’, como quando nos mostra duas jovens de uma família ‘bem’ italiana a dissertarem sobre o bem que Mussolini fez ao seu país ou uma rica proprietária Americana a dizer que tratam os empregados Mexicanos como iguais, até lhes dão umas tshirts e tal!
Não é que não gostemos de Michael Moore, mas quando nos estão a servir Renoir ou Visconti…
Comentarios:
Faz agora uma semana que fui ver o tão falado filme/documentário, Mondovino.
Passada uma semana ainda não parei de rir da imagem caricatural do famoso enólogo consultor Michel Rolland, bruto como não existe (a resolver tudo com microx.) e sempre a rir.
Ainda não parei de sorrir dos pequenos produtores do “velho mundo”, os fortes opositores da globalização do vinho, de personalidade marcada, com raízes muito fortes na região e já com idade e historial para dizerem o que lhes apetece sobre os Mondavi, os Robert Parkers e os Michel Rollands.
O filme é no entanto super tendencioso, quase “endiabolizando” todos os motores da globalização do vinho participantes no documentário, os Rothschild, o Michel Rolland e clientes, os Mondavi, ao serem comparados com pequenas empresas familiares, amantes da arte do vinho e do negocio familiar e deixando ainda no ar a ligações dúbias de Robert Parker, o mais conceituado crítico de vinhos do mundo, com a industria Californiana de Vinhos e com Michel Rolland.
Não me parece justo comparar os “monstros económicos” mobilizadores da Globalização, com pequenos produtores familiares, porque a escolha recairá sempre sobre o mais fraco, mas poético e menos institucionalizado. Quando também nós “Velho Mundo” temos esses monstros bem menos bonitos. Porque é que não comparam os Mondavi com a Adega Cooperativa da Merceana (sem demérito para esta) para ver de quem gostam mais.
É importante também frisar que qualquer uma das empresas “monstro” citadas, faz dos melhores vinhos do mundo, e quando adquire uma propriedade é para fazer excelência. Quem é que já bebeu um “Opus One” e disse que não gostava, ok dá uns coices de “velho mundo”, mas delicioso. Quem é que provou um “Mouton Rothschild” e não gostou, pode se criticar por ser demasiado madeirizado, apetecível de mais e por não dar coices, como os austeros Bordéus, mas também delicioso.
Numa indústria com tanto “marteleiro”, tanta falta de exigência na qualidade de alguns produtores, deixar um tom de crítica a quem trabalha bem, a quem faz bons vinhos, a quem promove bem os vinhos e vende bem os vinhos parece-me pura demagogia.
Por isso caros Mondavis, Rothschilds, Rollands, Parkers sejam bem vindos a Portugal para produzir bom vinho, dar novos conselhos, comentários e promover a nossas regiões.
Quase a finalizar… Meu caro Jonathan Nossiter, para um filme com um nome tão pretensioso como Mondovino, existem apenas 5 países documentados em 2h15m de filme. Felizmente para todos nós existem mais países produtores de vinho no “velho mundo” do que a França e a Itália e infelizmente países bem mais ameaçadores do “Novo Mundo” do que os USA. Talvez o filme se devesse chamar “Os países que eu escolhi para fazer passar a minha ideia-VINO” ?
Em tom de conclusão… Vão ver que mesmo assim vale muito a pena, vale mesmo.

Link sobre o filme Mondovino
onde posso comprar o filme?